Quando “aprender é uma terapia”

Notícia publicada no jornal A Voz de Trás-Os-Montes

Inglês, informática, danças de salão, história, ciências da terra e teatro. Estas são apenas algumas das disciplinas lecionadas numa academia em que, sem exames nem formatura, a aprendizagem dá mais sentido à vida.

Fundada há quase 15 anos, a Universidade Sénior de Vila Real voltou este ano a abrir as portas a novos alunos, homens e mulheres que, depois de uma vida inteira de trabalho, viram na reforma a oportunidade de regressar às aulas para aprender, recordar e, sobretudo, conviver. As inscrições continuam abertas a todos, sem limite de idade ou habilitações literárias mínimas exigidas. 


“As aulas começaram no dia 15 de setembro e vão prolongar-se até ao final do ano letivo, com as interrupções normais das férias de Natal e Páscoa, mas as inscrições continuam abertas”, explicou Carlos Coelho Pires, presidente da direção do Centro Cultural Regional de Vila Real, entidade responsável pela Universidade Sénior.


Contando atualmente com 56 alunos, que podem frequentar 12 disciplinas diferentes, a Universidade Sénior de Vila Real funciona no edifício do Centro Cultural e “obedece ao espírito do desenvolvimento das atividades intelectual e física dos alunos”.


Segundo o mesmo responsável, “as portas estão sempre abertas para quem quiser frequentar”. “Todos os nossos alunos são aposentados, mas podem vir pessoas que estejam ainda no ativo, desde que tenham horários compatíveis com as aulas”, explicou.


Ana Maria Botelho trabalhou como professore primária durante 34 anos e, em 2001, já depois da reforma, foi uma das primeiras a entrar na Universidade vila-realense. “Já tive tempo de fazer dois cursos”, disse entre risos a aluna que, depois de uma vida inteira a ensinar, nos últimos anos não abdica da oportunidade de estar ‘do outro da sala’, a frequentar as aulas de literatura, inglês, história, música e ciências da terra.


Mas, mais que o processo de aprendizagem em si, que, como explica, “é uma terapia” frequentar a Universidade Sénior enriquece através do convívio, da troca de ideias e experiências entre os alunos. “Aqui sinto-me muito bem. No dia em que não conseguir subir estas escadas vai ser um suplício para mim”, revelou Ana Maria Botelho.


No intervalo entre as aulas, a VTM falou ainda com Maria de Fátima Sousa, que também encontrou na Universidade Sénior a dinâmica que precisava depois de entrar na reforma. “Quando me reformei fui-me um bocadinho abaixo, porque tinha uma vida muito ativa. A minha escola era a minha segunda casa e gostava muito do que fazia”, recordou a professora que agora é aluna.


Frequentando as aulas de literatura, inglês, ciências da terra e música e canto, Maria de Fátima Sousa testemunha que o convívio entre os alunos é muito bom. “Conversamos sobre muita coisa, as vezes até conversamos demais e os professores queixam-se de que somos mal comportados”, explica, de forma divertida, a universitária sobre a experiência que inclui ainda visitas de estudos, seminários, exposições e outros momentos de convívio, como bailes e festas.


Frequentando a universidade três vezes por semana, ambas as alunas não têm que pensar muito quanto ao seu futuro “académico”, garantindo que vão permanecer na Universidade e deixando até ideias de expansão da oferta educativa, propondo novas disciplinas, algumas que já foram lecionadas, como arqueologia e cultura geral, e outras que poderiam ser uma boa aposta, como italiano.


Se para alguns reformados o impacto do adeus ao mundo do trabalho é grande e aterrador, para as duas alunas torna-se óbvio que, pela forma como falam e defendem a sua Universidade, “aprender, recordar e conviver” é o caminho para facilitar a entrada nessa nova fase da vida.


Para frequentar a Universidade Sénior os alunos têm que pagar uma “propina” simbólica, no valor de 40 euros. Segundo o regulamento os inscritos podem somar até dez disciplinas, mas se pretenderem frequentar mais, “não há problema”.


Carlos Coelho Pires explicou que ao longo dos últimos anos o Centro Cultural se tem empenhado em reduzir o valor da propina. “As Universidades Sénior têm uma função social importante e deveriam ser mais apoiadas pelo Estado, porque está provado que uma vida ativa garante um envelhecimento mais lento”, sublinhou o mesmo responsável.


Apesar da Universidade vila-realense não ter “fins lucrativos”, as propinas são necessárias para pagar, não só a remuneração de professores (procurando-se que cada vez mais as aulas sejam dadas por voluntários), mas também despesas de funcionamento, como água, luz e limpeza das instalações, gastos que outras universidades sénior não têm por não terem instalações próprias.


Relativamente às instalações, a Universidade funciona no edifício do centro Cultural Regional de Vila Real, um edifício do século XVIII que precisa agora de obras de requalificação. “Já fizemos um projeto para reparar o telhado e a instalação elétrica. No próximo quadro comunitário vamos apresentar uma candidatura para reparar as janelas e portas e para pintar o interior e exterior”, adiantou o presidente da direção do Centro.

Maria Meireles

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